09/11/2012

Para ela, atravessar uma passadeira, encarando o condutor do carro enquanto este trava, era uma das suas sensações favoritas. Uma misto de poder com o prazer de desafiar a morte. O poder ao fazer parar um carro, muito mais rápido, muito mais pesado e metálico do que ela. O poder ao ordenar, só com o olhar, um total desconhecido a alterar o seu intento. O poder de tornar algo estático. E, oh, o prazer de saber que era tão corajosa, meter-se à frente de algo que tão facilmente lhe partiria as pernas.

03/06/2012

De cada vez que conhece um novo homem, a primeira coisa que faz é juntar o seu nome ao dele. Caso soem bem juntos então está perante um bom agoiro e, assim, parte descansada para esta nova relação.

11/12/2011

Há muito que planeava encontrar-me com ela, vê-la, conhecê-la até. Encontrámo-nos no centro da cidade, ao desabrigo da multidão. Disse-me que queria comprar flores, meteu-se no carro comigo e, dando-me as direcções, fomos a um viveiro nos subúrbios. Não quis saber dos vasos com pequenas plantas, nem dos cactos nem das plantas rastejantes. Sem pensar, foi directa à parcela de cultivo de árvores e, enquanto caminhávamos, disse aborrecer-se com as plantas pequenas pois faziam-na sentir-se como Gulliver. Creio não ter percebido realmente o que ela pretendia dizer mas sorri-lhe e disse "És especial."
Eu sei que não sou atraente, estes ombros e olhos descaídos e a barriga proeminente pouco fazem por mim, por isso, desejando-a, decidi não encaralharar-me. Sabia que se a queria, teria de lho dar a entender ou, pelo menos, fazê-la entender.
Comprámos um vaso com um pé de macieira, pediu-me para a levar a casa - "A gata já deve estar cheia de fome". Chegámos, ela saiu com alguma pressa do carro e eu tentei apanhar-lhe o passo corrido. Subi as escadas mesmo atrás dela (sim, mirei-lhe o rabo como se de Deus se tratasse) e entrei. Ela disse-me "espera um pouco, vou pôr o vaso no jardim, já te mostro a gata." Impressionava-me este à-vontade dela, uma despreocupação algo enternecedora de tão genuína que era. Tornava tudo tão mais simples, saber que não a precisava de encher de atenção. Bastava segui-la e ela estaria grata. Voltou do jardim e disse-me para a seguir. Antes mesmo de ligar as luzes da casa, acerquei-me dela, envolvi-lhe a cintura nas minhas mãos de gente demasiado grande. Esperei um empurrão, um estalo, um insulto; ao invés disse calmamente "Por que estás aí com as mãos?" Estando de costas para mim, puxei-a contra a minha barriga, respirei-lhe o pescoço e o cabelo. Tão abaixo de mim, o meu queixo pousava facilmente sobre o topo da sua cabeça. Beijei-lhe o pescoço, ela não se mexeu, não fugiu. A orelha, o canto da boca. Sem reacção. Após um novo beijo a boca entreabriu-se. A gata miava ao longe mas ela manteve-se no mesmo sítio. Não a consigo entender, não se mexeu, ali permaneceu à minha mercê. Oh rapariga, que raio passou na tua cabeça?

03/11/2011

Ela senta-se no comboio em busca de maridos. É essa a premissa de todas as viagens. Sentar-se ao lado de um homem, cheirá-lo, observar-lhe os movimentos, olhar a forma como este coloca os olhos em redor - será que prefere a janela ou a multidão que viaja no comboio? Por vezes estes homens estão acordados, outras vezes dormem. Hoje o seu marido dorme. Ela senta-se a seu lado, foi movida pelo caracol de cabelo loiro que lhe cai sobre a testa. Mantém a boca fechada enquanto dorme, não ronca, não se baba, julga-o um homem cuidado e que, mesmo nos seus comportamentos mais primitivos, mantém a postura.
A esposa junta a anca à do seu marido, sente o calor próximo. Depois da anca vem o toque entre as duas pernas, até agora desconhecidas. Comporta-se como se conhecesse o seu marido há tempo suficiente para que estes gestos não despertem desejo sexual exagerado. Para ela, isto é a melhor das carícias, o juntar das pernas, joelhos adjacentes. Coloca o seu pé por detrás do do seu marido. Ajusta a sua respiração à dele, fecha os olhos. Pensa no seu matrimónio. Adormece e a sua cabeça cai sobre o ombro do seu marido.

21/10/2011

"Se eu me sentar despreocupadamente no canto da sala, a fumar, talvez reparem em mim."
Elas viram-se na rua e Eva não podia esconder a surpresa ao ver a sua amiga de infância sentada numa cadeira de rodas. Ana estava habituada àquele olhar, um misto de confusão e pena, e ainda assim não se conseguia habituar. Ficava quase furiosa de cada vez que acontecia. Abraçaram-se, longamente, era bom sentir calor humano assim, na força de um abraço.
Ao fim de um dia inteiro juntas, Ana  finalmente falou da sua relação com o namorado "Ele deixou-me após o acidente." Olharam-se em silêncio, também ela tinha acabado uma relação recentemente. Manteve-se firme no olhar e Ana respirou de alívio, sabia que agora estavam em igualdade, já não havia pena, apenas compaixão. Eva queria perguntar-lhe mas sabia que seria demais, que poderia magoa-la. Ficou-se pelo simples "Não te merecia", que mais poderia dizer? Ana riu-se, "não poderias ter dito nada mais lamechas, mas sim, talvez tenhas razão." Eva deu a mão a Ana, era bom ter uma amiga de volta. Ana respirou fundo e partilhou a angústia "Não sei se serei ainda capaz de o fazer. Tenho medo de..." Eva manteve a mão sobre a de Ana, não a deixaria. "Ajudar-te-ei." e beijou-a, não houve resistência, apenas confiança entre as duas. Eva ensinar-lhe-ia tudo, outra vez.
Hoje vi dois banqueiros a discutir na rua. Uma cinquentona loira que usava sapatos rasos (sinal de que há muito deixou de se considerar um ser sexual) e um homem de sobretudo de bom corte e cachecol a combinar. O homem, que tinha uma voz afectada, gritava para a senhora "Não podias ter branqueado! Eu não mandei branquear! Estás a ouvir? Não vás contar a fulaninho sicrano isto! É que nem penses!". E a senhora ia andando ao lado do homem efeminado, acompanhando o passo rápido, e gaguejando.
Fiquei à procura de algum tipo de submissão sexual mas não, não a havia; o homem era muito efeminado e a senhora muito celibatária.
Temos pena.