16/08/2008

o meu primo Ricardo comunicou-nos ontem que ia de viagem durante um período indeterminado de tempo. toda a gente ficou em choque ao ponto de nem perguntarem para onde iria ele. eu estava sentado à mesa, enquanto o resto da família estava no outro lado da sala a falar com o Ricardo. eu fazia de conta que estava absorto nos meus pensamentos, como de costume, mas na verdade eu ouvi tudo. quando o ricardo deu a grande noticia, eu virei a cara e olhei para a família: ficaram calados durante 2 minutos, estavam apenas a olhar para o ricardo, que sempre tinha sido o menino querido dos meus pais, dos meus tios, dos meus outros tios, dos meus avos paternos, dos meus avos maternos, até do raio da minha vizinha. ninguém conhecia o verdadeiro ricardo, apenas eu. ele tinha-me levado muitas vezes para o quarto dele, cujas paredes são amarelas e sujas e o tecto é branco com estrelas que brilham no escuro. eu sabia o que ele ia fazer quando saísse de casa, sabia melhor do que qualquer outra pessoa no mundo porque o ricardo tinha-se aberto comigo.
ao fim dos 2 minutos, a minha tia começou a chorar desalmadamente e agarrou o ricardo, abraçando-o. eu senti a dor da minha tia porque o meu melhor amigo também já foi de viagem e eu abracei-o exactamente do mesmo modo, com a enorme saudade que iria sentir quando ele não mais estivesse a meu lado. eu adorava o meu melhor amigo porque com ele eu não precisava de falar, ele sentia o que eu sentia, quando eu sentia. tínhamos uma ligação muito diferente do resto das pessoas, éramos os melhores amigos que poderiam haver. mas um dia ele disse "a floresta chama por mim" e foi para a amazónia. às vezes, na televisão, passam os filmes da anaconda e eu não consigo evitar que, dentro da minha cabeça, apareça a imagem do meu melhor amigo a ser comido por uma delas.

quando dou por mim, já me tinham arrastado para o meio da família chorosa e eu estava no meio de um choque entre barrigas de perímetro excessivo. mal conseguia respirar mas ninguém reparou, como de costume. no meio de toda aquela confusão, o ricardo deu-me a mão e apertou-a com muita força, ao ponto de quase me partir as articulações. eu não mexi a mão porque eu não vou ter saudades do ricardo. ficámos assim durante demasiado tempo, toda a família agarrada a chorar por cima do ricardo. eu sabia que o ricardo estava feliz no meio daquelas pessoas todas, a sentir que era verdadeiramente o menino querido da família. eu fiquei muito irritado e senti uma enorme fúria a crescer dentro de mim. como ainda sou pequeno, nao consegui tirar a minha mão de dentro da do ricardo, por isso mordi-o com muita força, a pensar nas anacondas da amazónia. ele gritou e eu corri casa fora, rua fora, floresta fora. escondi-me atrás de um rochedo e ninguém reparou, como de costume. fiquei lá toda a noite e por isso acabei por adormecer.

quando o sol nasceu, voltei para casa, fui para o meu quarto e encontrei o ricardo a dormir na minha cama, fiquei muito chateado porque estava mesmo a precisar de me deitar. fui à cozinha buscar um copo de leite mas como não havia pacotes de leite abertos, fui buscar uma tesoura à gaveta e abri um. servi-me, peguei no copo e levei-o de volta para o meu quarto, juntamente com a tesoura.
matei o ricardo, sujei os lençóis e bebi o meu copo de leite. o ricardo não gritou mas olhou para mim antes de morrer, olhou para mim, a suplicar. de repente deixei de estar chateado e irritado, fiquei feliz e voltei a sair de casa.
fui para a amazónia.