14/09/2008

Todas as tardes, um homem reza na igreja. É sempre o mesmo homem, calvo e de testa oleosa. Vem acompanhado por uma mulher que parece sua irmã, ela ampara-o quando a bengala não é suficiente, mas é curioso porque ele resmunga constantemente com ela.

"Tristão, vamos embora, já são horas..."
"Larga-me Roberta, estou a rezar!"

Perguntei ao sacristão quem era aquele senhor.
"O Tristão é louco, é louco há muito tempo, desde a juventude. Corria o rumor que ele tinha violado a irmã pequenina, que meses mais tarde morreu de tuberculose. Nesse altura, ele veio cá ao padre confessar-se e, a partir daí, reza todos os dias. É obcecado pela penitência mas eu duvido que alguma vez seja perdoado. Deus tenha em paz a alma da pequenina."

Fico muitas vezes a olhar para este homem e chego a segui-lo praça fora. Anda com passos pequenos e o seu coração negro que acabou por manchar a pele, pois ela é de um profundo cinzento, quase fantasmagórico.

Quase que consigo ler a mente de Tristão "vou ser perdoado, vou ser perdoado, vou ser perdoado, vou ser perdoado..."