10/10/2008

Em tempos, quando ia à grande cidade, ficava maravilhado com a diversidade de gentes e de vidas que caminhavam, apressadamente, pelas ruas frias . Era inevitável ficar pasmado para as casas, para os executivos com fatos de corte elegante, para os mais exóticos frutos no mercado. Sentia-me um incógnito, um desconhecido, tal era a indiferença com que as pessoas, de olhares vítreos e hipnotizados, olhavam para mim. Não tinha vergonha quando usava um chapéu extravagante ou quando, debaixo do sol ameno da tarde, fumava pretensiosamente um cigarro no banco de jardim. Não era julgado, não era olhado com desdém. Sentia-me verdadeiramente "eu". No entanto, não era isso que mais apreciava na cidade, eram as histórias que eu conseguia ver em todo o lado, pequenos momentos alheios que eu, enquanto discreto voyeur do quotidano, ia presenciando e guardando como se se tratassem de pequenas pérolas. Era com orgulho que, de volta à terra, mostrava os meus textos que ilustravam, com veracidade e sem pudor, a realidade fria da grande cidade.
Os dias entretanto foram passando, porque o tempo não espera por nós, e agora a cidade, que outrora considerava maravilhosa, não é nada mais que "uma cidade com pessoas". A mulher demasiado nova para ter engravidado, que carrega ao colo o bebé imundo, já nada me diz; a pedinte na esquina já não carrega qualquer história no olhar. Lentamente, as coisas foram-se apagando, tornando-se cada vez mais disfusas e, hoje, tudo isto não passa de uma mancha cinzenta.