09/10/2008

"José agarrou no seu par de botas mais velho e calçou-as, enquanto olhava a casa do outro lado da estrada. Era a casa mais estranha que alguma vez tinha visto, havia algo de mágico que lhe era intrínseco, algo que fazia com que as trepadeiras, que cobriam toda a sua fachada, fossem mudando de cor ignorando quaisquer estações do ano. Todas as manhãs, olhando pela janela, tentava adivinhar o que iria acontecer em volta daquela casa. No seu âmago, havia uma leve esperança que um dia as suas portadas se abrissem e viesse à janela uma ninfa de louros cabelos que, com um sorriso nos lábios, acenaria na sua direcção. Mas José, que certamente não era um sujeito ingénuo, sabia que tudo isso nunca viria a acontecer e que todas estas coisas, que ele ia imaginado, iriam consigo para a cova.
De botas calçadas e atadas, José partiu para o campo onde se encontrava o seu carro; era um Peugeot com a idade do seu filho, demasiado velho para valer alguma coisa no mercado e, por isso, José mantinha o seu pequeno veículo sempre asseado e em pleno funcionamento. Oh, José tinha passado tanta coisa ao volante daquele carrito, tantas viagens, tantas aventuras. Por vezes, vinha uma lágrima ao canto do olho quando se lembrava das colheitas improvisadas de amoras no Verão, de uvas no Outono. Orgulhava-se de ter feito amor com a sua mulher por cima da alavanca das mudanças ou até mesmo na mala. Embora pequenino, o velho Peugeot nunca o havia deixado mal."
Parei aqui e olhei para o meu carro, gasto, a cair de podre, e tal como o Peugeot do José, demasiado velho para valer alguma coisa. Porra, pensei para mim, não tenho sorte em nada nesta vida! Dei um chuto no carro e a jante caiu ao chão. Praguejei enquanto a colocava no sítio e decidi levar o carro à auto-lavagem. Saí de lá com boa cara tal era o brilho no para-brisas. Que delícia! Que delícia!, pensava para mim. A senhora da caixa registadora sorriu para mim enquanto eu intercalava as minhas frases com fugidíos olhares na direcção do meu carro. Convidei-a a dar uma volta, ela aceitou na condição que eu esperasse pelo final do seu turno. Assim o fiz e acabei por ter companhia para o resto da noite. Na manhã seguinte, não consegui evitar lembrar-me do José e do seu pequeno Peugeot, que de uma maneira ou de outra, tinham feito um homem um pouco mais feliz.