19/10/2008

A velha romena estava bêbeda, veio gritar-me ao ouvido e dançar em minha volta. Tem as mamas soltas que pincham como enorme tubérculos dentro de um saco de sarapilheira. Sorri-lhe e ela responde-me com o vislumbre das suas gengivas. Deixo-me estar, à chuva, com este esquiço de ninfa a dançar em minha volta que, do nada, começa a cantar qualquer coisa que não entendo. A chuva continua a abater-se sobre nós, com uma força tremenda e, por momentos, julgo estar a afogar-me. Pergunto-me se será esse o motivo para a tremenda da felicidade da mulher romena, que ainda há dois dias estava sentada numa esplanada a comer sardinhas fritas. O seu cheiro imundo, que sempre me provocava náuseas, parece agora domado pela chuva e por momentos julgo-a como mais uma daquelas mulheres para quem olho com um certo interesse, admirando-lhes a liberdade de ser e a vontade de dançar. Deixo-me levar pela loucura desta mulher que teima em não me deixar e começo a saltar em círculos, fecho os olhos e por vezes quase perco o equilíbrio sobre o chão escorregadio. Ficámos assim por uns minutos, com a voz dela a atravessar a chuva cerrada. Ao longe começa a trovoada, a mulher parece não ouvir e não pára, mas eu fico com medo e grito, ela grita, gritámos os dois e por fim veio a vizinha de cima gritar-nos “Calem-se filhos da puta!”. A trovoada cessou, a chuva parou e nós ficámos no meio da rua encharcados à espera do sol que nos viesse secar as roupas.