22/05/2009

Vinha uma rapariga no comboio com o lábio a sangrar; era no canto esquerdo, estava vermelho e brilhante e eu quase sentia o ardor da ferida na minha pele. Era uma rapariga loira, ainda nova, pequena e magra. Não parecia triste a olhar pela janela, era simplesmente ausente. Fiquei a olha-la e quis dar-lhe a mão para que ela se esquecesse da dor no lábio. Deve ter-lhe doído, era um corte profundo. Fiquei a olhar, a pensar no porquê daquele corte que a fazia tão frágil, e depois ela olhou para mim, apanhou-me a olhar para o lábio, e eu olhei para o lado mas depois pensei "não" e voltei a olhar para ela, desta vez estávamos os dois a olhar e encontrámo-nos, eu sorri-lhe (diziam que eu era bonito quando sorria) e ela sorriu de volta. Depois olhámos os dois pela janela e passámos por uma paisagem cheia de vacas, rimo-nos e ela disse "quando era miúda vivia numa quinta com pastos assim". Não lhe respondi, apenas olhei para ela esperando que ela continuasse, mas ela não o fez, e eu continuei, olhando-a, até que os meus olhos doessem, tanto quanto o lábio dela.