11/12/2011

Há muito que planeava encontrar-me com ela, vê-la, conhecê-la até. Encontrámo-nos no centro da cidade, ao desabrigo da multidão. Disse-me que queria comprar flores, meteu-se no carro comigo e, dando-me as direcções, fomos a um viveiro nos subúrbios. Não quis saber dos vasos com pequenas plantas, nem dos cactos nem das plantas rastejantes. Sem pensar, foi directa à parcela de cultivo de árvores e, enquanto caminhávamos, disse aborrecer-se com as plantas pequenas pois faziam-na sentir-se como Gulliver. Creio não ter percebido realmente o que ela pretendia dizer mas sorri-lhe e disse "És especial."
Eu sei que não sou atraente, estes ombros e olhos descaídos e a barriga proeminente pouco fazem por mim, por isso, desejando-a, decidi não encaralharar-me. Sabia que se a queria, teria de lho dar a entender ou, pelo menos, fazê-la entender.
Comprámos um vaso com um pé de macieira, pediu-me para a levar a casa - "A gata já deve estar cheia de fome". Chegámos, ela saiu com alguma pressa do carro e eu tentei apanhar-lhe o passo corrido. Subi as escadas mesmo atrás dela (sim, mirei-lhe o rabo como se de Deus se tratasse) e entrei. Ela disse-me "espera um pouco, vou pôr o vaso no jardim, já te mostro a gata." Impressionava-me este à-vontade dela, uma despreocupação algo enternecedora de tão genuína que era. Tornava tudo tão mais simples, saber que não a precisava de encher de atenção. Bastava segui-la e ela estaria grata. Voltou do jardim e disse-me para a seguir. Antes mesmo de ligar as luzes da casa, acerquei-me dela, envolvi-lhe a cintura nas minhas mãos de gente demasiado grande. Esperei um empurrão, um estalo, um insulto; ao invés disse calmamente "Por que estás aí com as mãos?" Estando de costas para mim, puxei-a contra a minha barriga, respirei-lhe o pescoço e o cabelo. Tão abaixo de mim, o meu queixo pousava facilmente sobre o topo da sua cabeça. Beijei-lhe o pescoço, ela não se mexeu, não fugiu. A orelha, o canto da boca. Sem reacção. Após um novo beijo a boca entreabriu-se. A gata miava ao longe mas ela manteve-se no mesmo sítio. Não a consigo entender, não se mexeu, ali permaneceu à minha mercê. Oh rapariga, que raio passou na tua cabeça?